
A possibilidade do personagem gay Orlandinho, de A Favorita, ter um final feliz heterossexual divide opiniões e aquece a velha polêmica: existe ex-gay? Assim como muitos na vida real, Orlandinho, personagem de Iran Malfitano na novela A Favorita, é um gay enrustido. Passou quase toda a trama sofrendo pelo amor não correspondido do garotão Halley (Cauã Reymond). Assim como na vida real, Orlandinho vive um casamento de aparências. Assumiu a retirante Maria do Céu (Deborah Secco) como mulher para não perder as regalias dadas pela avó milionária. Mas como poucos – na vida real e na ficção – Orlandinho é um gay afetado que tem tudo para ter um final feliz heterossexual.
Em A Favorita, que acaba em 16 de janeiro, o casamento que começou como uma farsa entre amigos caminha para ser consumado com os dois personagens indo para a cama juntos com mais freqüência. Além de se interessar sexualmente e afetivamente por Céu, Orlandinho começou a fazer a linha machão, como equivocadamente indicam as cenas em que ele bate em dois homens que paqueravam sua mulher e coça o órgão sexual. Como se violência e má educação fossem sinal de masculinidade, mas essa parte a gente abafa!
No início da trama, o rapaz foi apresentado como piloto de Fórmula 3, lutador jiu-jítsu e vivia cercado de belas mulheres. Tudo disfarce. De qualquer forma, a mudança no comportamento do personagem divide opiniões dentro e fora do mundo gay. A decisão de "transformar" o personagem homossexual teria sido tomada pelo autor João Emanuel Carneiro com base em pesquisas de aprovação. Enquente realizada pelo site da novela mostrou que 89% dos internautas querem que Orlandinho e Céu terminem juntos. "Pesquisa é maioria e a maioria é hétero", critica o jornalista Deco Ribeiro, criador do site E-Jovem (http://www.e-jovem.com/), de orientação a adolescentes gays. "É como fazer uma pesquisa na torcida do Corinthians: 'O personagem deve ser corintiano ou palmeirense?' Óbvio que ia dar corintiano. Fica difícil saber o quanto de homofobia não teve nessa escolha do público", completa. Deco conta que o movimento gay está, para variar, dividido. Uns acham absurdo o autor fazer o Orlandinho virar hétero porque passaria a falsa impressão que é possível "curar" um gay, o que é pregado por algumas igrejas e seitas religiosas. Outra parte acha interessante o autor brincar com a questão da sexualidade humana que não é fixa e imutável, explica Deco. "Assim como tem homens que se casam e se descobrem gays anos depois, lésbicas que largam o marido em busca de outra mulher, por que não um gay se descobrir hétero?", questiona o jornalista. Para Deco, o importante é deixar claro que ele não era gay e virou hétero. "Não se vira nada. A gente se descobre gay ou se descobre hétero. Uns com mais facilidade, outros com menos. Uns na adolescência, outros anos depois. Acontece todos os dias. O Orlandinho só se descobriu bissexual", acredita, torcendo para que esta opção fique clara na TV. "Gostaria de ver, no último capítulo, um cara passando e o Orlandinho dando aquela olhada..." Surpresas "
"Não há Deborah Secco que me faça virar hétero porque isso é algo inerente a mim. Não tem como eu apertar uma tecla e mudar minha sexualidade", explica o professor Diego (nome fictício), de 34 anos. Para ele, o autor João Emanuel Carneiro presta um desserviço aos homossexuais. Dono das histórias de A Favorita, João criou uma vilã serial killer, uma mocinha debochada, uma mulher que apanha do marido e dá a volta por cima e uma lésbica bonitona. Se fizer de Orlandinho um ex-gay dará seu passo mais ousado. Iran Malfitano, que já havia trabalhado com Carneiro em Cobras & Lagartos (2006), disse que não ficou surpreso com essa possilidade. O ator tem na ponta da língua a teoria para Orlandinho e Céu ficarem juntos. "Ele nunca beijou ou teve relações sexuais com outro homem. Não é um gay convicto. O lance dele com Halley era carência afetiva, não sexualidade. Ele queria carinho. De repente, encontrou o porto-seguro em uma mulher", raciocina. E vai mais longe. "Da mesma maneira que o amor platônico transformou um hétero em homossexual, a confiança mútua e o carinho exacerbado transformou a amizade deles em tesão", completa, afirmando que torce muito para o final feliz do casal.
Secretário de Comunicação da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), Liorcino Mendes Pereira Filho avalia que Orlandinho é um personagem com enorme conflito interior. "É um bissexual que primeiro se identificou com o mundo gay e agora se afirma no mundo hétero". Para ele, A Favorita tratou bem a questão da homossexualidade feminina de Stela (Paula Burlamaqui) e sua amizade com Catarina (Lilia Cabral), mas deixou a desejar quanto à sexualidade de Orlandinho. "A novela não contribuiu para educar a população sobre o que é a bissexualidade e as formas de se reduzir o preconceito. Faltou tratar o Orlandinho com a mesma seriedade com que foi tratada a Stela".
Presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), Marcelo Cerqueira também reclama da falta de seriedade com que o assunto é tratado. "A orientação sexual é uma coisa muito séria. É frustrante ver um personagem que caminhava tão bem mudar de uma forma tão abrupta. Isso nos decepciona, faz parecer um pouco de deboche", desabafa. Diretor do Mix Brasil, André Fischer também não se surpreende com o possível desfecho. "Não será surpresa. As novelas são caretas. Surpreendente seria se ele terminasse com o Halley. Feliz, casado e dando um beijo na boca", provoca André. (Com agências)
Preconceito reforçado Os homossexuais ouvidos pelo POPULAR concordam que o final heterossexual do personagem tido como gay pode reforçar preconceitos e estereótipos. "O final da trama pode levar muitos pais e religiosos fanáticos a acreditar que a homossexualidade 'tem cura'. Muitos adolescentes e jovens viverão um conflito muito maior, ao acreditar, que, como numa novela, podem deixar de ser gays e tornarem-se héteros", critica Liorcino Mendes. Não é de hoje que polêmicas envolvendo gays em telenovelas funcionam como esteróides de audiência. O personagem gay virou tão obrigatório quanto a mocinha e o vilão. O que muda é o tratamento. Tratamento que, segundo a pesquisadora Edith Modesto, fundadora da ONG Grupo de Pais de Homossexuais, em A Favorita revela traços de homofobia. "A novela passa uma mensagem de que a diversidade sexual é uma escolha. Eu não escolhi ser heterossexual e sei que os gays não escolheram ser gays. A orientação sexual é uma condição natural e espontânea do ser humano. Nessa novela, as personagens viram de heterossexuais para gays e vice-versa. Eu não entendi o objetivo disso." Para a pesquisadora, a trama revela desconhecimento do autor sobre o assunto e reflete e reforça a ignorância das pessoas sobre o tema. "Se o público acreditar que há a possibilidade de 'desvirar' gay será um grande desserviço que a TV prestará", critica. Ainda que a sociedade urbana encare o "homossexualismo" (Lembrando que homosexualismo não existe e sim Homosexualidade) cada vez mais com normalidade, a idéia não é das mais populares. Em novelas, incluir personagens homossexuais não chega a causar alvoroço. Mas as cenas românticas entre iguais ainda são tabu.
A história de Orlandinho, apesar do viés cômico, tem tudo para ser mais um capítulo na novela que virou o tratamento dos gays na TV brasileira. Bem longe de um final feliz. Desde os anos 1970, a psiquiatria aceitou como dogma a tese de que terapias para mudar a orientação sexual carecem de bases científicas. Isso porque não se chegou ainda a uma certeza sobre a origem da homossexualidade.
Nota:
O detalhe nisso tudo é que por mais que a ciência prove que a sexualidade é algo inato da pessoa, sempre existirão aqueles que irão querer provar que os cientistas estão errados.
Não se trata aqui de uma questão de ciência e sim de preconeito enraizado nas pessoas. A sexualidade não define caráter , ser hétero não significa ser direito e ser homosexual não signifia pederastia.
Enquanto a mídia continuar apontando o homosexual com um coitado perdido na vida, nunca chegaremos a lugar nenhum e não conseguiremos mudar a mente das pessoas, pois o preconceito vem do berço, isso é uma questão de educação e não de ciência.
A mídia que poderia ser usada para quebrar tabus e mostrar a realidade, se rende ao tradicionalsmo intrínseco de pessoas que não se preocupam com o ser humano e sim com um padrão béstil estabelicido, dizendo ser o padrão da tal moral e ética.
Até quando teremos que nos deparar com isso? Enqano lutamos e sofremos muitas vezes calados em meio aos nossos sentimentos, batalhamos arduamente para mostar as pessoas que convivem conosco de que sexualidade nada tem a ver com caráter e bom senso, a mídia em apenas um dia tem o poder devastador de uma bomba atômica, que destroi tudo e a todos, levando consigo os sonhos das pessoas de serem livres e respeitadas como seres humanos e não tratadas como doentes!
Até quando? Você vai se calar? Eu NÃO!
Reportagem de Renato Queiroz. Notas : Flávio Orsollan
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