
Todos tem o direito de se casar e ser feliz, mas o que parece brincadeira mesmo é a espetacularização de casamento gay e reforço de esteriótipos junto ao grande público. Essa tendência de Big Brother, de colocar na telinha a "realidade", não combina com batalha pelos direitos civis do povo GLBTT. Afinal... "para uma câmera, a realidade sempre faz pose." E em se tratando de gay em frente das câmeras... Que pose é essa meu bem!?
No Brasil de hoje todo mundo quer virar celebridade instantânea. Do ganhador do Big Brother, à mulher melancia e é lógico até os gays se casando. Tudo vale pra aparecer na telinha, que é considerada *o* trampolim para o sucesso!! Estudar que é bom e bater cartão, ninguém quer.
Aí o pai de família, os crentes, os conservadores olham aquela bizarrice na TV, que quer resumir em 3 minutos questões sociais complicadíssimas, e o que fica na memória é: 2 homens de branco (cor de noiva), de grinalda (coisa de noiva) com bouquet (coisa de noiva), se casando em uma cerimônia religiosa (também coisa de noiva). Quem vê aquela cena patética, olha e fala: dois gays se casando, uma palhaçada.
Ninguém quer discutir questões de direitos civis e de família com um advogado, um juiz, um parlamentar, etc. É chato e não dá audiência. Dois gays de noiva dá mais ibope que um advogado numa escrivaninha falando sobre direitos de família. Duas "caminhoneiras" de smoking na frente da igreja chamam mais a atenção do que um juiz falando sobre direitos de herança de casal gay. Em todas as tentativas que o movimento gay americano fez pra conseguir ter a tão desejada união civil, esse foi o único tipo de imagem que saiu nos jornais mundo à fora. E o que conseguiu a militância gay mais engajada do mundo? Praticamente nada!!
Essa palhaçada que sai na TV agride os grupos religiosos porque o "casamento" é um sacramento da igreja. Aí começa um conflito entre a visão de mundo debochada dos gays, com o sacro-santo dos grupos religiosos. Acontece o que? Os caras se armam pra defender a visão de mundo deles. Adianta explicar que o projeto que está há mais de década no congresso, é união civil e não casamento, se me aparecem dois gays de noiva na televisão? NÃO! Uma imagem, fala por 1.000 palavras, mas um milhão de palavras não corrigem uma imagem errada.
E falando em esteriótipos, quase todo gay sofre de síndrome de Peter Pan. Ninguém fica velho. Somos todos jovens, belíssimas, bombadas, botox-adas, com muita tintura no cabelon e com muitos cremes anti-rugas. Os gays arrumam um cafuçú, juntam os trapinhos, decoram o barraco, viajam juntos pra todos os points gays, de Rio de Janeiro a Floripa e NYC. Estão todos lá sempre. Ir até o cartório da esquina e fazer um testamento, fazer um seguro de vida em nome do outro, ninguém vai. Ninguém tem tempo e nem dinheiro pra falar com um advogado. São todos os gays eternamente jovens. O casamento é pensado como só a palhaçada do dia da cerimônia, de seguir um modelo heterosexual para mostrar pra sociedade *o* amor que os une. Você já ouviu algum gay falar: eu quero casar e virar um gay velho ao lado do meu marido, me aposentar, comprar um sítio em Águas de Lindóia e fazer horta por lá, quero empurrar cadeira de rodas e trocar fralda geriátrica. Isso ninguém pensa, ninguém fala e ninguém quer. Mas... os direitos de pensão, os bens do cafucú etecetera, todo mundo quer, né!!
União civil é um pacote com direitos e deveres. Alguns direitos já são até reconhecidos por certas empresas, como plano de saúde e outros benefícios, ou até direito de herança. Mas dá um trabalho pros gays... dá um desgaste com a família... Pra ficar com uma merreca, a coitado do
gay viúvo tem que penhorar as calçolinhas, vender as roupas de drag, e etc. pra pagar o advogado.
E quanto aos deveres? Você se imagina indo ao hospital durante meses e meses com o seu companheiro sofrendo por lá, segurando ao mão dele até a hora de desligar os aparelhos? Você já imaginou o seu companheiro inválido em casa, sem poder trabalhar e você com todas as responsabilidades nas costas?
Você já se imaginou indo no RH da empresa que você trabalha e solicitando o registro do seu bofe no plano de saúde? Pra algumas empresas, não há problema nenhum. Pra outras mais conservadoras, é bem complicado. Ou seja, não é só ter o direito de colocar o seu parceiro no plano de saúde, é ter peito pra enfrentar um preconceito que pode estar lá, mas você nunca tem certeza até ir lá e fazer.
Alguém já se imaginou batendo as botas, virando purpurina e indo ver grama crescer pelo lado debaixo? Aí dá uma olhada pro seu companheiro, filha. Você tem certeza de que quer deixar pra ele o seu puxadinho, as suas jóias (falsas), a sua TV de 14 polegadas que vc comprou nas casas Bahia, e o mais que você tiver? E pra mamãe? Se quiser deixar alguma coisa, tem que ir no cartório registrar o testamento!
E se você é a" bixa reeeca", feeena e poderosa, manda trazer um cafuçúzinho leeendo do interior, assina toda a papelada, vira "marida", paga a faculdade dele, e depois que ele se forma, você leva um pé na bunda e ele ainda pede pensão por um bom período? E agora? Além de financiar tudo ainda tem que pagar pensão?
O Brasil é um país de preconceitos velados. Preconceito racial, sexual, religioso e social. Temos a maior Parada Gay do planeta, mas quase só vai heterosexual nela porque virou a única festa de rua do ano. Temos separação entre igreja e Estado, mas o lobby dos deputados evangélicos não deixa que o projeto de união civil vá à votação. O presidente abre a conferência GLBT em Brasília e fala: "... que Deus ilumine os gays". Os gays estão no escuro por acaso? Só se for na escuridão do darkroom. Iluminar pra que e por que? Os gays estão na escuridão porque não tem dinheiro pra pagar a conta de luz ou está na escuridão das idéias, que ser gay é o dark side of the force. Hetero dá fora até mesmo quando tenta fazer *a* simpática. E vamos lá, vamos gritar: "Euquero os meus direitos" Mas os deveres...
Não sou contra o casamento religioso, muito pelo contrário, mas antes de armar o circo é preciso ser realista e buscar uma união verdadeira com cumplicidade onde os Direitos tenham o mesmo peso que os Deveres. Acorda Brasil!
*Matéria publicada originalmente na edição #14 da revista A Capa - julho 2008
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